Com El Niño acima de 95% de probabilidade, cadeia de irrigação antecipa produção para a safra 2026/27

Nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM aponta configuração do fenômeno no segundo semestre, com potencial de intensidade forte a muito forte. Fabricantes de tubos e conexões em PVC ajustam capacidade instalada antes da janela de plantio

A Nota Técnica Conjunta divulgada em 19 de junho pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), pelo INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), pela Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos) e pelo CENSIPAM (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia) aponta probabilidade superior a 95% de persistência das condições de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com possibilidade de extensão até pelo menos o início de 2027. O documento indica ainda que o fenômeno tem potencial para atingir intensidade forte a muito forte.

Os números do CPC (Climate Prediction Center), braço climático da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), reforçam a leitura. No início de junho, o órgão manteve o Pacífico equatorial em condição neutra sob status de El Niño Watch, mas atribuiu 82% de probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho e 96% de chance de continuidade entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. A probabilidade de um evento de intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 foi estimada em 63%.

A tradução econômica desse cenário já circula entre analistas. Estimativa apresentada por Eduardo Assad, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, projeta que um El Niño forte em 2026 pode provocar queda de 7% a 10% na produção brasileira de soja, milho, café e laranja. O efeito, contudo, não é homogêneo: o fenômeno tende a agravar a estiagem no Norte, no Nordeste e em partes do Centro-Oeste e do Sudeste, enquanto favorece chuvas acima da média na Região Sul. É essa assimetria que vem redesenhando a demanda por infraestrutura hídrica no campo.

No elo industrial da cadeia, o movimento se manifesta como antecipação de pedidos. A Asperbras, fabricante de tubos e conexões de PVC e PEAD fundada em 1985 em Penápolis (SP), opera hoje com seis plantas industriais distribuídas por São Paulo, Rio Grande do Norte e Bahia, com capacidade de 60 mil toneladas por ano de PVC e 14 mil toneladas por ano de PEAD.

“A decisão de irrigar não acontece no mês do plantio, ela acontece antes. Quando o produtor lê um boletim climático em junho, o pedido de tubo chega em julho e agosto, porque ele precisa do sistema montado e testado antes da semeadura. O que a indústria faz nesse intervalo é converter previsão climática em programação de produção”, comenta Thiago Rosa, Diretor Comercial da Asperbras.

A janela é estreita. O plantio da safra 2026/27 se concentra entre setembro e outubro nas principais regiões produtoras, o que empurra a decisão de investimento em irrigação para o terceiro trimestre. Dimensionamento de projeto, aquisição de tubulação, montagem e teste de pressão consomem semanas, e o gargalo raramente é o equipamento de bombeamento: é a linha de condução.

Do lado do portfólio, a companhia trabalha com tubos em diâmetros de DN15 a DN500 e conexões de DN15 a DN150, faixa que cobre da condução principal aos ramais de distribuição. No cenário atual, ganha relevância o formato de projeto sazonal, em que o produtor testa a irrigação em uma área antes de imobilizar capital em estrutura fixa.

A distribuição geográfica das plantas também explica parte do movimento. As unidades no Rio Grande do Norte e na Bahia estão posicionadas dentro do arco que os órgãos climáticos apontam como o de maior risco de redução de chuvas, o que encurta prazo de entrega justamente onde a pressão de demanda tende a se concentrar.

O pano de fundo estrutural é mais amplo do que um único evento climático. Levantamento da Embrapa com dados até outubro de 2024 mostrou que a área irrigada por pivôs centrais no Brasil cresceu mais de 14% em dois anos, atingindo 2,2 milhões de hectares. Estudos da ANA (Agência Nacional de Águas) e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional estimam o potencial irrigável do país em até 55 milhões de hectares. A distância entre os dois números é o tamanho do mercado endereçável.

“Um El Niño é um evento. A defasagem entre o potencial irrigável do Brasil e a área efetivamente irrigada é uma condição permanente. O fenômeno apenas torna visível, em um único ciclo, um custo que o país paga de forma diluída todos os anos”, afirma Francisco Carlos Jorge Colnaghi, Vice-Presidente do Conselho de Administração da Asperbras.

Segundo a ANA, a produção irrigada apresenta produtividade de duas a três vezes maior do que a de áreas de sequeiro. Para a indústria fornecedora, o cálculo relevante nos próximos trimestres não será o da intensidade final do El Niño, e sim o de quanto da demanda antecipada em 2026 se converte em base instalada permanente em 2027.

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