Por que a reprodução assistida movimentará R$ 3 bilhões no Brasil em 2026

Boom demográfico, adiamento da maternidade e novas configurações familiares impulsionam o setor de reprodução assistida no país, que já se consolida como o maior da América Latina

O mercado brasileiro de reprodução assistida vive um momento de forte expansão e deve movimentar R$ 3 bilhões em 2026, consolidando o país como o maior polo do segmento na América Latina (dados da consultoria Redirection International). Impulsionado por transformações demográficas, pelo avanço da ciência e pela quebra de tabus culturais, o setor atrai cada vez mais brasileiros em busca de tratamentos de fertilidade e preservação reprodutiva.

O cenário reflete uma tendência global apontada pela Organização Mundial da Saúde (OMS): 1 em cada 6 pessoas em idade reprodutiva enfrenta dificuldades para engravidar ao longo da vida, o equivalente a pouco mais de 16% da população. No Brasil, essa realidade ganha contornos próprios com a mudança no perfil das famílias, o crescimento das produções independentes, a busca por casais homoafetivos e o avanço da carreira feminina, que tem levado muitas mulheres a postergar o sonho da maternidade.

Para a Dra. Paula Fettback, especialista em Reprodução Humana pela FEBRASGO, o crescimento expressivo do setor nos últimos anos é fruto de uma combinação de fatores biológicos e comportamentais.

“Esse crescimento é resultado de uma combinação de fatores. O primeiro é demográfico: homens e, principalmente, mulheres estão postergando a vida reprodutiva. No Brasil, isso já aparece claramente nas estatísticas de nascimento. Do ponto de vista biológico, entretanto, nossa sociedade mudou muito mais rapidamente do que a nossa capacidade reprodutiva”, pontua a especialista.

A médica reforça que a qualidade e a quantidade dos óvulos diminuem progressivamente com a idade, de forma mais acentuada a partir dos 35 anos. “Por isso, quando o projeto de ter filhos é transferido para mais tarde, cresce também a necessidade de investigação e, em alguns casos, de técnicas de reprodução assistida”, completa.

Muito além da idade: a nova cara da família brasileira

Se no passado os tratamentos de fertilidade eram associados exclusivamente a casais que enfrentavam quadros severos de infertilidade, hoje o perfil dos pacientes mudou radicalmente. A Dra. Graziela Canheo, especialista em reprodução humana da La Vita Clinic, destaca que o movimento atual vai muito além do mero adiamento da gestação.

“Estamos diante de uma transformação importante no perfil das famílias e nos projetos de vida. As mulheres têm postergado a maternidade por diferentes razões, como formação profissional, carreira, estabilidade financeira e realizações pessoais. Mas isso não significa que deixaram de sonhar com a maternidade”, afirma a médica.

Segundo a especialista, o ecossistema da medicina reprodutiva hoje atende a uma gama muito mais ampla de configurações e necessidades:

Produções independentes com sêmen de doador;

Casais homoafetivos construindo suas famílias;

Preservação preventiva antes de tratamentos oncológicos;

Maior reconhecimento do fator masculino, que passou a ser investigado em pé de igualdade desde o início dos processos, quebrando o antigo estigma de que a infertilidade seria um problema exclusivamente feminino.

Essa descentralização geográfica dos serviços também pesou no avanço do mercado. Laboratórios e clínicas de alta tecnologia, antes concentrados nos grandes eixos como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, expandiram-se para diferentes regiões do país, facilitando o acesso geográfico.

O fenômeno do congelamento de óvulos: solução milagrosa ou planejamento?

Entre as alternativas mais procuradas está o congelamento de óvulos, técnica que ganhou forte apelo popular nos últimos anos. No entanto, as especialistas alertam para o perigo de transformar a ferramenta em um falso “seguro maternidade”.

A Dra. Paula Fettback aponta que, embora a procura pelo congelamento “social” (motivado por razões profissionais, financeiras ou afetivas) tenha crescido consideravelmente, o timing ainda é um desafio.

“Na prática, vejo principalmente mulheres na faixa dos 34 a 38 anos procurando aconselhamento sobre preservação de fertilidade. O que, do ponto de vista biológico, não seria ainda o ideal. Precisamos conscientizar as mulheres para procurar o congelamento mais cedo, de preferência mais próximo dos 30 anos”, alerta.

A médica faz questão de ressaltar que congelar óvulos não é garantia de gravidez no futuro: “O resultado depende principalmente da idade no momento do congelamento, do número de óvulos maduros obtidos e de etapas posteriores, como sobrevivência ao descongelamento, fertilização e desenvolvimento embrionário”.

Corroborando essa visão, a Dra. Graziela Canheo lembra que, apesar de mais difundido, o procedimento ainda carrega um custo elevado: “O congelamento de óvulos ainda é um tratamento de custo elevado no Brasil e, portanto, não podemos dizer que seja um procedimento acessível à maior parte da população. No entanto, ele se consolidou como uma importante ferramenta de planejamento reprodutivo para quem consegue se programar antecipadamente”.

A grande barreira: o custo e o desafio da equidade

Apesar da projeção de movimentar R$ 3 bilhões e do forte apelo comercial, os especialistas fazem um alerta importante: o crescimento do mercado não é sinônimo de democratização.

Para a Dra. Graziela Canheo, a barreira financeira continua sendo um obstáculo severo para a maioria das famílias brasileiras.

“O crescimento do mercado e a maior disseminação de informação não significam que os tratamentos tenham se tornado acessíveis para a maior parte da população. Precisamos avançar em políticas públicas e iniciativas público-privadas que ampliem o acesso à avaliação e ao planejamento reprodutivo”, defende.

A visão é compartilhada pela Dra. Paula Fettback, que lembra diretrizes globais recentes sobre o tema: “A OMS chamou atenção para isso em sua primeira diretriz global sobre infertilidade, publicada em 2025: em muitos países, a investigação e os tratamentos continuam sendo financiados majoritariamente pelo próprio paciente. No setor privado, além do procedimento, o casal arca com medicamentos, exames e armazenamento. Muitas vezes, não estamos falando de uma única tentativa, o que eleva consideravelmente o impacto financeiro”.

No setor corporativo internacional, o cenário começa a mudar: nos Estados Unidos, por exemplo, 42% das grandes empresas já oferecem pacotes de benefícios voltados à fertilidade para reter talentos, segundo a consultoria Mercer. No Brasil, a prática ainda engatinha, mas começa a entrar no radar de companhias que buscam modernizar seus pacotes de benefícios e apoiar colaboradores heterossexuais e profissionais LGBTQIA+.

Desmistificando a fertilidade: o perigo de esperar demais

Muitos pacientes chegam aos consultórios tarde demais devido a mitos arraigados na sociedade. Entre os principais erros apontados pelas especialistas estão:

O mito da menstruação regular: acreditar que, enquanto houver ciclos regulares, a fertilidade está intacta, ignorando que a qualidade dos óvulos cai drasticamente com a idade;

O mito do tempo de espera: esperar anos de tentativas frustradas antes de buscar ajuda (a recomendação médica é investigar após 12 meses para mulheres abaixo dos 35 anos, e após apenas 6 meses para quem tem mais de 35);

O mito da exclusividade feminina: achar que a investigação da infertilidade recai apenas sobre a mulher, deixando o espermograma para segundo plano;

O mito da FIV infalível: pensar que a fertilização in vitro é capaz de reverter o envelhecimento biológico dos óvulos.

“A mensagem que eu gostaria que chegasse às pessoas é que procurar um especialista precocemente não significa que alguém necessariamente fará fertilização in vitro. Muitas vezes significa apenas conhecer melhor a própria fertilidade, diagnosticar uma condição tratável e tomar decisões reprodutivas com informação e tempo a favor”, conclui a Dra. Paula Fettback.

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